mais uma.

“Só mais uma”, disse ela com cara de cão sem dono.

Garotas adoram garotos que tocam violão, mesmo quando já não são mais tão garotos assim. E como garotos que tocam violão adoram que as garotas lhes adorem por isso, ele obviamente atendeu ao pedido.

Tocou Caetano. Não por acaso, mas porque desejava verdadeiramente descobrir as histórias que haviam debaixo dos caracóis daqueles cabelos castanhos a sua frente.

Ela balançava a cabeça, olhos fechados, somente sentindo a canção e a verdade de quem a entoava. Até porque, de olhos fechados, não há jogo de sedução nem charme a se fazer. Há o estar e apenas isso.

Ele, de olhos bem abertos, a observava encantado enquanto encantava cantando Caetano. A letra e os acordes saiam automaticamente, de modo que ele podia se dedicar somente a admirá-la. O que por si só era, de fato, admirável.

Quando cessou a última nota, os papeis se inverteram. Ela abriu os olhos, dando espaço a uma visão momentaneamente turva, enquanto que ele os fechou, turvando uma visão momentaneamente angelical. E ali ficaram, os dois, em um silêncio quase tão melódico quanto um instrumento pode produzir.

“Mais uma?”, quebrou o silêncio o garoto do violão já em posição de dó maior. “Melhor não”, disse ela levando o indicador aos lábios dele. “Vai que tu estragas o que acabou de construir com outro qualquer que não seja Caetano”.

Ele sorriu. Ela fechou os olhos. E, juntos, tocaram um primeiro beijo de fazer toda a Tropicália morrer de inveja. Viva a bossa, sa, sa, viva a palhoça, ça, ça, ça, ça.

Anúncios

sai na janela.

Sai na janela
E olha pro céu
Namore as estrelas
Procure um cometa
Gaste uns minutos ao léu

Sai na janela
E olha pra mim
Me namore no olhar
Faça o sorriso brilhar
Sou seu arlequim

Sai na janela
E olha pra dentro
Bata com o coração
Respire fundo o pulmão
E volte mais cedo.

tribunal emocional.

Em um tribunal repleto de emoção
Resolveu o distinto Dr. Destino
Defender a ré Desilusão

Que acusada pelo crime de aspereza
Argumentou desalentada
Que agiu em legítima defesa
(E não quis dizer mais nada)

A promotoria, no entanto,
Respondeu com outra acusação
Comprovou dor seguida de pranto
E pediu 10 anos de prisão

O juiz ainda incerto
Ponderou dentro da lei
“A condeno a um futuro incerto
Ou lhe dou chance mais uma vez?”

O júri prendeu a respiração
Quando o martelo foi batido
A sentença da Desilusão
– por unânime decisão –
É viver com o peito livre, ainda que dolorido.

peito machucado.

O peito que carrega dor
É um peito tímido feito garoto
E calejado feito um senhor

Porque o peito machucado
Que bate em total desalinho
Inspira desconfiança e pede cuidado
(vá devagarinho)

Não espere, portanto,
Que o peito machucado
Resolva se doar sem pranto

Porque o peito machucado
Tímido, calejado e em desalinho
(acredite)
Ainda carrega um coração apaixonado.

quando crescer.

O que você quer ser
se não crescer?

Piloto de avião
Aventureiro
Jockey de dragão
Ou marinheiro?

Quer construir castelos
Se formar em fada
Escrever mistérios
Ser astronauta?

Jogar a Copa do Mundo
Ou só jogar vídeo game
Mergulhar bem lá no fundo
Ser duende?

Quer ser baterista
A artista da vez
Falar pro mundo
Ou falar chinês?

E você,
o que quer ser
se não crescer?

tempo ao tempo.

Como se soubesse a hora em que acordas, o sol veio te ver. Entrou silencioso pela fresta da janela e, mesmo quando você franziu a testa, avançou apaixonado a acariciar o seu rosto, lhe fazendo aquecer.

Como se soubesse a hora em que chegas, a chuva veio te ver. Escorregou delicada pela janela, lhe cortejou como merecem as donzelas e, durante todo o tempo em precipitou, se atentou a te conhecer.

Como se soubesse a hora em que deitas, a lua veio te ver. Subiu o mais alto que pode, correu de nova a minguante, e dividiu espaço com todas as estrelas só para te embalar até adormecer.